Do sítio à periferia de São Paulo: o combate aos desertos alimentares em São Miguel Paulista
Moradores idealizam hortas urbanas, alimentação infantil à base de alimentos orgânicos e multiplicam os conhecimentos ancestrais em seus territórios
Vista da sede do grupo Mulheres do GAU, em São Miguel Paulista, onde são produzidos alimentos agroecológicos | Foto: Rosiana Alda
Regiões periféricas têm vários comércios locais e um dos mais representativos é o mercadinho do bairro, que facilita o acesso aos alimentos da população. Nesse tipo de comércio, os alimentos ultraprocessados invadem as prateleiras. “Os alimentos ultraprocessados contém aditivos químicos que são substâncias não nutritivas utilizadas para melhorar a aparência, o sabor e a durabilidade do alimento. Estas substâncias podem causar diversos males à saúde como câncer, alergias, alterações no comportamento, como hiperatividade, além de enxaqueca, alterações na microbiota intestinal, hipertensão, diabete”, explica a nutricionista Milena Fernandes.
Entre as periferias de São Paulo, organizações e lideranças comunitárias têm mudado essa realidade ao inserir atividades educacionais, de empreendedorismo e alimentação saudável, como em São Miguel Paulista, distrito da cidade de São Paulo (SP), mas não atinge a todos. “Na periferia de São Paulo não é assim. Tem um ponto na União Vila Nova, tem um ponto em São Matheus das associações das mulheres. Tem um ponto na zona sul como restaurante da Tia Nice e toda a feira do Thiaguinho. Alguma coisa na Brasilândia, mas ainda é pouco”, quem diz isso é o Antonio Hermes de Sousa, cearense, nascido no município de Tauá. Desde meados dos anos 2000, ele busca promover projetos sociais em São Miguel Paulista.

Escutador de histórias como prefere ser chamado, ao invés de líder, Hermes conta que veio morar em São Paulo em 1979 e trabalhou como garçom por 10 anos. Depois, voltou para a sua cidade natal e conheceu a sua esposa. Em 1989, o pai vendeu a propriedade da família. “Em uma semana veio o plano Collor e a gente perdeu tudo. Aí eu vim para São Paulo, em 1989, decidido a não trabalhar mais. Vim achando que estava certo roubar os outros. Fui preso em 1990”. Foi com o trabalho realizado em um ateliê no Bixiga com pessoas da antiga FEBEM (atual Fundação Casa), em 2000, que ele começou a se envolver com projetos em apoio à transformação social. “Como a gente já vem de um lugar de escassez, no nordeste também é escasso, por mais que tenha muita terra é escasso de chuva, a ideia é que a gente ocupe todos os espaços possíveis e regenera as funções desses espaços. Daí nascem o Viveiro Escola, Mulheres do GAU, a Uni-Diversidade da Quebrada, Escola debaixo da ponte, espaços que estavam aí ociosos”, enfatiza.
Outro conceito que ele leva muito a sério é o de promover uma educação desenrolada. “Essa educação desenrolada é com essa visão: O que eu faço onde estou? Como melhoro onde estou?”. Existem diversas oportunidades gratuitas aos moradores que são desenvolvidas entre as 5 “ensinanças”, como intitulou os projetos da Uni-Diversidade: Ensinança de Gastronomia, de meio ambiente, comunicação comunitária, empreendedorismo com geração de renda, artística e cultural.
Mulheres do GAU promovem acesso à horta urbana dentro de São Miguel Paulista
Um carrinho de mão não está no meio do Viveiro-escola, sede das Mulheres do GAU, por acaso. Ele sobe e desce as ruas de São Miguel Paulista, (distrito de São Paulo) pelas mãos de ao menos sete mulheres nordestinas, que o carrega com hortaliças, Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) e temperos com um destino certo: alimentar as crianças do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (CREN).
Helena Caroba e Aldinéia Pereira da Silva são duas delas e estão à frente das Mulheres do GAU (Grupo de Agricultura Urbana). Caroba chegou ao Viveiro Escola há quase 20 anos. Quando a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano) cedeu o espaço, ninguém enxergava ali como um local de produção de alimentos agroecológicos. Nesse período, houve muito trabalho para a própria população mudar o cenário. “Eu costumo falar que essa história de trabalhar com a permacultura, com a natureza, é para quem gosta, mesmo sem ter recursos, ela se sente em um refúgio”, destaca Caroba. E o refúgio da Caroba é florido, cheio de borboletas, abelhas, plantas e uma casinha de pau a pique que ela cuida com muita dedicação.

Os primeiros contatos com a alimentação orgânica da Helena começaram na infância. Ela nasceu em Serrolândia (BA) e morou em Jacobina, no mesmo estado. “Na casa da gente, no quintalzinho da vovó tinha a gamela, uma bacia. Colocava terra nela e plantava a cebolinha, o coentro, a alface. Ali já era uma comida orgânica. Já tive esse olhar das coisas gostosas, do cheiro e do sabor” — recorda.
Aos 7 anos, ela ficou órfã de pai. A mãe dela teve seis filhos. Recorda-se do irmão ir trabalhar com sisal para ajudar no sustento da família. Dona Helena morou com a tia e voltou para casa da mãe aos 9 anos. Depois, trabalhou de babá para uma família. Conheceu São Paulo aos 12 anos, quando veio a passeio com a família que trabalhava. Retornou para morar na metrópole em 1978. Helena trabalhou em empresas, casa de família e veio para São Miguel para ser zeladora de praça e aprendeu a lidar com a terra pelos cursos oferecidos pela CDHU. Hoje, aos 68 anos, cuida do jardim que ajudou a levantar. “Aqui eu ajudo de qual forma? Plantando, deixando esse lugar maravilhoso”.
Já Aldinéia, mais conhecida como Léia, encontra a dona Caroba todos os dias de trabalho na sede das Mulheres do GAU, e também não é paulista. Veio da Bahia e reforça que a horta urbana do viveiro recorda a sua infância e ancestralidade. Conheceu o trabalho bem cedo, aos 13 anos levava alimentos para vender em feiras. Depois, ficou um bom tempo trabalhando em mercado. Aos 22 anos, conheceu o esposo, mudou-se para Guarulhos e teve uma filha. Há cinco anos, ela vive com a família em São Miguel Paulista. Por ser vizinha do Viveiro Escola, aproveitava para entrar no local. “Como aqui é cheio de plantas, me chamou a atenção. Comecei a andar com a minha filha, lembrava da minha vó”. Depois, passou a se envolver cada vez mais. “Aqui têm almoços e comecei a lavar a louça como voluntária”.
Atualmente, é colaboradora remunerada do espaço e divide o seu tempo entre cuidar das plantas, levar e buscar a filha de 7 anos na escola. Ela também reforça que existem outras realidades lá dentro. “Tem mulheres, aqui, que são mães solos e precisam dessa renda”, por isso, enfatiza o quanto é importante receber mais incentivos do poder público, encontrar mão-de-obra que ajude a expandir as vendas e também a ter mais escolas e empresas interessadas em oficinas de permacultura e refeições que oferecem.
A única horta urbana de São Miguel Paulista

Durante a entrevista, seu José Carlos de Medeiros, de 53 anos, chegou para levar algumas hortaliças para casa. Morador de São Miguel Paulista, ele saiu de Sítio Novo (Rio Grande do Norte), onde morava em sítio, e veio para São Paulo em 1987. Na adolescência, vendia ferro velho. Quando chegou na capital, trabalhou por 8 anos em feira, depois em uma empresa, montou a própria papelaria e teve loja por 25 anos.
Em 2004, passou a ter mais consciência sobre o consumo de alimentos orgânicos ao trabalhar em um projeto social com crianças da comunidade. Quando ele não encontra o que precisa no Mulheres do GAU, percorre 20 minutos de carro, aproximadamente, até um mercado que tem os alimentos orgânicos. Também indica que há espaços na própria comunidade que poderiam ser utilizados para mais hortas. “O que acredito é que precisa ter uma articulação para utilizar esses espaços”, reforça Medeiros.
Além das Mulheres do GAU, existe apenas uma feira de alimentos orgânicos em São Miguel Paulista, distrito de São Paulo com mais de 370 mil habitantes. Aqui percebe-se que a conta não fecha entre a produção dos alimentos versus número de pessoas que deveriam ter acesso à boa alimentação.
Alimentação orgânica em São Miguel Paulista para crianças com desvio nutricional

Em parceria com as Mulheres do GAU, o CREN — Centro de Recuperação e Educação Nutricional — realiza duas compras: uma de cestas de alimentos que vão para o Centro de Educação Infantil (CEI) e sacolas enviadas às famílias de outras regiões que não têm condições financeiras de comprar as hortaliças e PANCs orgânicas.
Às segundas-feiras, Léia utiliza um carrinho de mão, ou uma bicicleta, para levar os alimentos da horta até o CEI-CREN, e esses têm destino certo: alimentar as crianças que estão com algum desvio nutricional. Adolfo Pereira de Mendonça, de 39 anos, é nutricionista e engajado com os projetos da comunidade há 10 anos. Ele nasceu na Zona Leste de São Paulo e, atualmente, mora em Osasco. Durante a formação acadêmica, conheceu São Miguel Paulista no período de estágio. Assim como Richard, que está lá no sítio a Boa Terra, ele também continuou trabalhando com o direito à boa alimentação. Atualmente, se desdobra para atuar tanto no CREN, como nutricionista responsável pelo semi-internato de 80 crianças do CEI, quanto na Uni-Diversidade, onde realiza oficinas gastronômicas com jovens, adultos e idosos em busca de resgatar as ancestralidades da comida sertaneja.
Sobre o trabalho direcionado ao público infantil, ele explica que a “criança que passa na UBS, e é identificado desvio nutricional — baixa estatura, baixo peso e excesso de peso — é encaminhada ao CREN para realizar o acompanhamento e tratamento. E têm as crianças que ficam lá conosco em um regime de semi-internato, que é um CEI acoplado com um equipamento de saúde”. Durante o período que essas crianças estão no CEI, recebem cinco refeições com base orgânica e as famílias também são orientadas.
Ele está à frente das sacolas doadas às famílias em vulnerabilidade social e reforça: “uma coisa que temos muito forte é não ser uma doação apenas assistencial. Tem um processo educativo em volta dessa doação para que as pessoas possam, a partir dessa sacola, se interessarem e procurarem onde podem adquirir esses alimentos”.
Para ele, uma forma de deixar o alimento orgânico mais barato é eliminar algumas barreiras.
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Sete anos atrás, ele fez um mapeamento das ruas de São Miguel Paulista e identificou que a maioria das pessoas não precisaria andar nem 400 metros para encontrar alimentos in natura. No entanto, hoje a maior dificuldade da população é saber diferenciar o in natura convencional do orgânico. “Se você pega as famílias que estão a 1,6 km daqui, elas não sabem que existe o Viveiro Escola. Falta educação alimentar e apropriação do bairro para que as pessoas se identifiquem e saibam onde encontrar”.
A iniciativa que doou mais de 75 mil cestas em meio à pandemia, conectou uma rede de apoio aos produtores rurais de orgânicos e projetos sociais

Júlio, Richard, Sebastião e Ana não conhecem a Léia, Adolfo, Helena, José Carlos e Hermes, mas foram conectados de um certo modo. De um lado, quem produz alimentos orgânicos e precisava do escoamento deles para evitar prejuízos e desperdícios em meio à pandemia de covid-19, do outro, pessoas que atuam em projetos sociais em São Miguel Paulista e que precisavam de doações às famílias da comunidade.
Neste período, surgiu o “Orgânico Solidário”, plataforma que recebe doações de alimentos dos produtores rurais e envia para as instituições que distribuem para as famílias que precisam. Entre os produtores rurais parceiros está o Sítio A Boa Terra, que integra a plataforma desde o começo e chegou a fornecer mais de 600 cestas no auge do projeto, além de contribuir com doações. As famílias em situação de vulnerabilidade social, que participaram das atividades desenvolvidas em São Miguel Paulista foram beneficiadas, recebendo alimentos orgânicos gratuitamente. Foram mais de 500 toneladas de alimentos produzidos para compor mais de 75 mil cestas doadas. A ação envolveu a participação de 100 produtores rurais pelo país.
Tanto os produtores rurais do interior de São Paulo quanto às iniciativas em São Miguel Paulista e dos idealizadores do Orgânico Solidário demonstram como é possível combater os desertos alimentares através do acesso à informação, educação ambiental, conscientização e efetivo contato com os alimentos saudáveis.
Todos os personagens da série de reportagens “Desertos alimentares em xeque” estão combatendo os desertos alimentares em seus territórios ao decidirem que alimentos orgânicos devem chegar à mesa da criança ao idoso, sem barreiras para isso. Nem que seja levando em carrinho de mão ou atravessando 200 km.
A série de reportagens “Desertos alimentares em xeque” foi produzida com apoio financeiro do site “Observatório de Favelas” e, originalmente, publicado na editoria “Notícias e análises” com expressa autorização para reprodução pela jornalista Rosiana Alda.










