Do campo à mesa: como é o dia a dia de quem planta os alimentos orgânicos que combatem os desertos alimentares
Mais de 4 mil cestas orgânicas são produzidas, mensalmente, mas enfrentam desafios de escoamento em um mercado que exige alimentos com aparências perfeitas
Plantação de verduras orgânicas do Sítio A Boa Terra | Foto: Rosiana Alda
Aos 68 anos, seu Sebastião Alcântara acorda às 4h para preparar o café e ter tempo para falar com Deus, antes de percorrer cerca de 20 km de moto, saindo de Vargem Grande do Sul (SP), para trabalhar, a partir das 6h30, na máquina e plantio dos orgânicos do Sítio A Boa Terra, localizado em Casa Branca (SP). Ele é um dos 32 colaboradores do local e está nesta rotina desde 1991.
O sítio tornou-se um dos pioneiros da agricultura orgânica da região, tem uma área total de 100 hectares, sendo 12 hectares utilizados para a produção de quase 4 mil cestas mensais e mais de 70 hectares área de preservação natural.
Nascido e criado também em Vargem Grande do Sul, Tião da Boa Terra, como é conhecido na região, veio de uma família de agricultores que trabalhava em uma fazenda como colonos (quando o trabalhador também mora na fazenda). Devido ao pai ter ficado doente (desmaiava repentinamente), deixou de estudar aos 10 anos para assumir o lugar do patriarca da família. “Não pude estudar mais e peguei o caminho da roça”. Até o fim da adolescência, ele só teve contato com alimentos orgânicos. “A gente produzia tudo orgânico até os meus 19 anos. Fazia a terra, plantava e colhia aquela alimentação perfeita”.
Em 1971, saiu do campo para a zona urbana de Vargem Grande, pois a fazenda onde trabalhava e morava deixou de produzir feijão para investir na produção de café. “Ficamos aborrecidos e saímos de lá meu pai, minha mãe e mais seis irmãos”. Ao saírem do campo para a zona urbana, seu Tião passou a ter contato com os agrotóxicos. “Quando a gente veio para a cidade, eu conheci a parte da convencional, o adubo, esses venenos bravos. Eu ia plantar batata, eles jogavam um pozinho preto dentro do risco da batata”.
Entre as memórias daquela época, ele conta sobre cenas difíceis de esquecer. “Naquele tempo não tinha trator, surcava com o burro para cobrir a batata. Quando era de tarde, quantos burros não morriam pelo cheiro do veneno. Muita gente empipocava o rosto, passava mal, tinha dor de cabeça”.
Depois dessa experiência, seu Tião também foi cortador de cana por 5 anos até ser demitido, em 1990. Nessa época, ele já estava casado desde 1975 e a esposa trabalhava em uma fazenda que cultivava alho orgânico. Ela conseguiu uma vaga para o marido que, em pouco tempo, foi contratado e enviado com um grupo de trabalhadores rurais para o Sítio A Boa Terra em janeiro de 1991.
Do sustento vindo do campo, o casal teve dois filhos e três netos. Sobre a produção de orgânicos, enfatiza: “É uma alimentação rica, puríssima. Você pode entrar naquela estufa ali agora, você acha dois tomates maduros e come com gosto”. Também se orgulha em ter muita energia: “Eu tenho uma potência para correr, trabalhar como se tivesse 30 anos ainda. Estou muito feliz aqui, tenho uma saúde perfeita e gosto do serviço que eu faço”.

Já o Júlio Cesar Benedito, de 42 anos, cresceu em Itobi, cidadezinha com pouco mais de 7 mil habitantes, a 5 minutos de carro até o sítio. Ele presenciou o que aconteceu com muitas famílias que nasceram no campo. “Meus pais vieram de um processo que comiam muita abóbora, batata-doce, mandioca, porque era o que tinha. O sonho deles era comer iogurte, refrigerante, coisas que eles achavam um máximo e comiam poucas vezes por ano, mas sem saber que faziam a alimentação certa. Eles nos criaram em um movimento de dar para a gente o que não tiveram. Espero que a nova geração que está tendo filhos tenha essa consciência para mudar isso de novo”.
Desde setembro de 1997, Júlio é o gerente geral do sítio e em quase 2 horas de conversa, ele mostrou boa parte da infraestrutura de onde atua há quase 25 anos. Entre Ipês, girassóis, plantação de orgânicos e passarinhos que cantam o tempo todo, o sítio também leva educação ambiental às crianças de escolas municipais da região. Elas fazem parte dos projetos Jovens Jardineiros e Guardiões da Natureza, ambos criados pelo Centro Ecológico dentro do sítio em 2003. A ideia é conscientizar sobre a importância do meio ambiente e da boa alimentação. “Fico bem feliz que as escolas estão trabalhando uma alimentação viva e que possa conectar os alunos a melhor alimentação porque começa a partir daí”, reforça Benedito.
Entre os mitos e verdades que os produtores rurais enfrentam ao produzirem orgânicos
Apesar do preço ser uma grande barreira a quem não tem muitos recursos financeiros, é possível criar alternativas que facilitem esse acesso e que combate os desertos alimentares: reduzir as distâncias entre quem produz e quem consome. Aos sábados, o sítio realiza uma feira orgânica com valores mais acessíveis. “As pessoas podem comprar legumes, verduras e frutas com preços praticamente de custo”, enfatiza Júlio. “Dá para melhorar esse preço. Dá para melhorar o volume. Vamos para São Paulo com 200 cestas. Se fossemos com mil, o custo de frete seria o mesmo. Só aí conseguiria diminuir bastante os custos”, reforça.
A prática de venda direta do produtor de alimentos orgânicos para o consumidor é assegurada pela Lei nº 10.831/2003, em seu Art. 3º:
[[§ 1º No caso da comercialização direta aos consumidores, por parte dos agricultores familiares, inseridos em processos próprios de organização e controle social, previamente cadastrados junto ao órgão fiscalizador, a certificação será facultativa, uma vez assegurada aos consumidores e ao órgão fiscalizador a rastreabilidade do produto e o livre acesso aos locais de produção ou processamento.]]
Outro impasse quanto ao preço está relacionado às prioridades da classe média brasileira. Nesse sentido, Júlio questiona: “A questão financeira é séria, mas ela poderia ser trabalhada de outras formas por essa questão da valorização do que eu desejo fazer com o recurso financeiro que eu tenho. Eu prefiro comer três lanches ou uma cesta que dá para alimentar até três pessoas por uma semana?”
Só o que cabe na bandeja
Um ponto interessante que o Júlio trouxe foi a questão das dificuldades que os produtores rurais têm ao tentarem vender para os mercados, pois só podem colocar o que cabe em uma bandeja com medidas exatas, quando a natureza não tem essa exatidão toda. “A questão principal é que a gente tem que atender uma necessidade de mercado que ele está estipulada para uma bandeja e todo produto tem que caber. Uma abobrinha brasileira tem que ter entre 18 cm e 22 cm, mais do que isso não cabe na bandeja que o supermercado pede e, por isso, ela não pode ser usada”.
Outro problema está em conscientizar o comprador sobre a necessidade de respeitar o ciclo da própria natureza. “Fomos habituados a termos tudo, o ano todo, à disposição. Na agricultura orgânica não funciona desse jeito”, reflete Júlio.
O combate ao desperdício de bons alimentos começa em não exigir perfeição da natureza
Richard Geremias, de 36 anos, fez o caminho contrário ao de muita gente. Enquanto muitos que nasceram no interior sonhavam em morar na capital paulista e conquistar espaço na “cidade grande”, Richard passou boa parte da vida na metrópole paulista, estudou agronomia e decidiu viver no interior. “Trabalhei em São Paulo com equipamentos hospitalares por seis anos, abandonei para estudar e tive esse chamado interno para ficar mais próximo da natureza. Decidi estudar agronomia para entender melhor sobre plantas, cultivo e agricultura em 2013”. Três anos depois, a porta de entrada no Sítio A Boa Terra aconteceu por meio de um estágio. Atualmente, ele é o responsável pela equipe de produção.
Em tempos de harmonização facial e cultura de um padrão de beleza “perfeito” nem os vegetais são poupados. As frutas, legumes e verduras precisam chegar até aos consumidores mais exigentes sem nenhum defeito.“O tomate tem muita broca, fura o fruto. Você consegue uma produção boa, mas sem padrão. Como lidar com esse padrão que está cada vez mais exigente para o orgânico também? É um grande desafio para o produtor”.
Se as pessoas não vão até o orgânico, o orgânico vai até as pessoas

Ana Lina Tobias, de 56 anos, coordena a equipe que separa os alimentos destinados às cestas. Ela nasceu em São José do Rio Pardo. “Eu sempre morei em roça. Então, a gente não usava veneno na horta”. Assim como Tião, ela estudou pouco, mas quis terminar os estudos mais tarde. “Na minha
época, quando fazia a segunda, terceira série estava bom. Tomei a decisão com 17 anos de voltar a estudar. Eu ia de ônibus, fiz dois anos de supletivo e fiz até o terceiro colégio”. Ana casou, teve filhos, trabalhou no Sítio A Boa Terra por 13 anos. “Já trabalhei na embalagem, já fui do campo, trabalhei com o pessoal da produção, no setor de compras, fazia o planejamento”, e saiu em 2013 para empreender.
As dificuldades da agricultura familiar somadas aos prejuízos, causados por clientes que não pagaram pelos produtos, fizeram Ana pausar este sonho em 2015. De lá para cá, trabalhou em outros lugares até receber o convite para coordenar a equipe da separação dos alimentos do sítio A Boa Terra em 2020.
Ao longo do dia, a rotina dela é assegurar que os alimentos serão separados dentro das conformidades exigidas pelas certificadoras. Para evitar o desperdício de alimentos, que continuam nutritivos, mas não estão nos padrões estéticos exigidos, ela nos conta que são aproveitados durante os eventos que acontecem no sítio, pelos próprios colaboradores, ou doados para uma instituição local.
A necessidade de levar os orgânicos para outras regiões
De 1981, quando o sítio foi fundado, até os dias atuais, as pessoas que atuam com a produção de alimentos orgânicos no local presenciaram as transformações do campo, do consumo e do êxodo rural. Resistiram, reinventaram e recriaram maneiras de conectar com as pessoas.
Atualmente, a logística utilizada pela equipe é: a venda de cestas ou itens orgânicos avulsos acontece online. Eles colhem os alimentos do sítio às segundas-feiras a partir das 6h30, separam depois das 10h e realizam as entregas às terças-feiras, principalmente em São Paulo e região. Além disso, atendem também a um mercado de Jundiaí, alguns locais do Rio de Janeiro, Maranhão e Teresina. “Só a região não consegue absorver o que produzimos ainda, nem gira recursos financeiros para manter o negócio”, reforça Júlio. Além disso, como existem alimentos que se adaptam melhor a uma região com um determinado clima, existem as parcerias.










